Detesto praia. Detesto o burburinho de quem diz procurar descanso num areal sujo onde procura uma vaga para uma toalha. Detesto o toque da areia. Detesto ir banhar-me no mar. Adoro o mar.
Gosto de me encontrar quando estou com o mar. Gosto de passear por uma marginal quando tenho um destino específico, não por vaguear, quando sei para o que vou. Procuro um pontão longo e procuro um lugar junto à rebentação das ondas onde não tenha absolutamente ninguém ao meu lado, onde só ouça o barulho do mar. Ligo o leitor de MP3 e posso ficar horas inerte a ouvir a minha música, na minha companhia, com o meu mar. Fascina-me a força bruta daquela massa azul, a sua inviolabilidade, o efeito que tem sobre mim. Muitas vezes fui para estes locais à noite sentado só na escuridão a apreciar o medo que o som deste monstro fazia a toda a minha volta, sentado como Gulliver em Brobdingnag.
É nestes momentos que faço algo que nem sempre me é permitido, é nestes momentos que penso, isolado, só por mim, onde permito pensar-me invadido por uma amálgama de sentimentos que escalam conforme os sons das ondas e das minhas músicas. Ouço dEUS e invadem-me a nostalgia e a saudade. Ouço Air e invade-me a leveza do ser. Ouço DeVotchka e invade-me a injustiça. Ouço Morrissey e invade-me a vaidade. Ouço Morphine e invade-me a certeza. Ouço Schifrin e invade-me a solidão que procuro. Invadem-me resoluções, nenhuma menos importante que outra. Revigoro-me.
Homem livre, tu sempre gostarás do mar ; Charles Baudelaire

Eu e o meu mar, 20/08/08
Sinto-me eu, o verdadeiro eu, o eu que que finalmente se despede do seu mar e caminha em direcção ao mundo. Mas não sou o eu que vai de encontro a este, sou antes o eu que permite que o mundo me volte a rodear mas sem nunca me tocar. Volto a ouvir a cercar os meus headphones o som dos humanos incapazes de perceber que volto a sorrir enquanto que caminho pelo meio do mundo a ouvir The Killers.
But it’s just the price I pay
Destiny is calling me
Open up my eager eyes
‘Cause I’m Mr. Brightside