Arquivo de August, 2008

Record é rei


Capa do jornal de hoje:

Grande entrevista de 5 páginas ao reforço benfiquista. A não perder.

Ah, e parece que o Nelson Évora ganhou uma medalhita, mas é preciso ter olho para descobrir a notícia.

Mas quando é que há gente suficiente para se juntar um grupo decente, entrar na sede do Record e cortar as mãos à malta que faz estas capas? É que eu até já tenho medo de imaginar a capa que vai ser publicada no dia de reis…


Arquivo de August, 2008

Homem livre, tu sempre gostarás do mar


Detesto praia. Detesto o burburinho de quem diz procurar descanso num areal sujo onde procura uma vaga para uma toalha. Detesto o toque da areia. Detesto ir banhar-me no mar. Adoro o mar.

Gosto de me encontrar quando estou com o mar. Gosto de passear por uma marginal quando tenho um destino específico, não por vaguear, quando sei para o que vou. Procuro um pontão longo e procuro um lugar junto à rebentação das ondas onde não tenha absolutamente ninguém ao meu lado, onde só ouça o barulho do mar. Ligo o leitor de MP3 e posso ficar horas inerte a ouvir a minha música, na minha companhia, com o meu mar. Fascina-me a força bruta daquela massa azul, a sua inviolabilidade, o efeito que tem sobre mim. Muitas vezes fui para estes locais à noite sentado só na escuridão a apreciar o medo que o som deste monstro fazia a toda a minha volta, sentado como Gulliver em Brobdingnag.

É nestes momentos que faço algo que nem sempre me é permitido, é nestes momentos que penso, isolado, só por mim, onde permito pensar-me invadido por uma amálgama de sentimentos que escalam conforme os sons das ondas e das minhas músicas. Ouço dEUS e invadem-me a nostalgia e a saudade. Ouço Air e invade-me a leveza do ser. Ouço DeVotchka e invade-me a injustiça. Ouço Morrissey e invade-me a vaidade. Ouço Morphine e invade-me a certeza. Ouço Schifrin e invade-me a solidão que procuro. Invadem-me resoluções, nenhuma menos importante que outra. Revigoro-me.

Homem livre, tu sempre gostarás do mar ; Charles Baudelaire

DSC00427

Eu e o meu mar, 20/08/08

Sinto-me eu, o verdadeiro eu, o eu que que finalmente se despede do seu mar e caminha em direcção ao mundo. Mas não sou o eu que vai de encontro a este, sou antes o eu que permite que o mundo me volte a rodear mas sem nunca me tocar. Volto a ouvir a cercar os meus headphones o som dos humanos incapazes de perceber que volto a sorrir enquanto que caminho pelo meio do mundo a ouvir The Killers.

But it’s just the price I pay

Destiny is calling me

Open up my eager eyes

‘Cause I’m Mr. Brightside


Arquivo de August, 2008

Jogos Lolímpicos


Estes Jogos Olímpicos, em especial a representação portuguesa, têm sido dignas de um país que pára para seguir as novelas entre o Luís Filipneus Vieira, o Pinto Rei e a senhora dona Carolina Pulitzer Salgado.
E não falo propriamente das provas que os nossos atletas lá andam a fazer. Essas, melhores ou piores, só são feitas por quem conseguiu por mérito próprio lá chegar. Falo antes das expectativas criadas antes das provas, das típicas desilusões do povo português durante as mesmas e das barbaridades que são escritas/ditas depois.

As expectativas criadas antes dos jogos começarem são sempre de que temos os melhores atletas do mundo. Na verdade ninguém sabe muito bem em quê, porque aqui vê-se futebol e chega, mas ouve-se falar que no Judo, no Atletismo, no tiro ao alvo e nos matraquilhos olímpicos temos dos melhores do mundo. Na verdade ninguém acompanhou minimamente durante 4 anos o que esses supostos melhores do mundo foram fazendo em provas nacionais ou internacionais, mas isso que interessa? Temos alguns dos melhores do mundo.

Durante os dias das provas vão-se lendo algumas declarações de atletas que se sentem motivados e que acreditam que podem dar algumas alegrias ao povo. E de repente meio Portugal torna-se especialista no triplo salto, no salto em comprimento, na vela, no judo e no badminton feminino se for preciso.

Depois vem o pior: atletas que se esforçam mas a quem as coisas não correm bem (como a Naide Gomes); atletas que se esforçam mas que enfrentam competição mais forte ou pelo menos do mesmo nível e onde um ínfimo detalhe impossível de prever pode ditar a diferença entre um 9º e um 3º lugar (como o João Pina a quem custou ouvir a voz a tremer após o último combate); atletas que se esforçam e que não aceitam a derrota sem atribuir culpas a terceiros, com ou sem razão; atletas que dizem semelhantes barbaridades após as provas que nos fazem duvidar se ao menos tentaram e atletas que depois de perceber que não chegam às medalhas (ou pior) acham que meter férias antecipadas e até nem é má ideia.
E é claro que com coisas assim há justos que pagam pelos pecadores. O chefão do Comité Olímpico Português vem reclamar com os atletas que dizem aos jornais, rádios e tvs que preferem estar “na caminha” na hora da competição ou que não vão participar na prova X ou Y porque a competição é muito forte e sendo assim não vão lá fazer nada (pelos vistos essa até voltou atrás com o que disse porque está agora mesmo a correr). No lugar dele eu não fazia essas declarações. Mais facilmente eu iria ter com o atleta em questão e pedia-lhe para repetir o que disse. No caso de ele confirmar o que veio nos jornais, então a coisa ficava mais fácil: pagar bilhete de volta para casa e pedir de volta o dinheirinho que o COP lhe andou a dar durante uns tempos para que ele pudesse ir ao jogos. Ah, e para a próxima que arranjasse um part-time que lhe pagasse a viagem e a estadia no caso de conseguir os mínimos para os jogos de 2012.

Depois há, como disse mais atrás, os justos a pagar pelos pecadores. O caso do Gustavo Lima que ficou a um mísero ponto das medalhas é brutal. Quem não leu,ouviu que leia/ouça as suas declarações logo após a prova para perceber o que lhe ia na alma. Quem passa 6 a 8 horas por dia a treinar um desporto quase sempre sozinho, quase sem concorrência em Portugal, não merece ouvir qualquer crítica por conseguir um belo 4º lugar.

Mas o que mais me impressiona não são as declarações dos atletas, do presidente do COP ou do Saakashvili. O que mais me impressiona é ouvir o que o povão pensa. É chegar ao Público online ir à zona de comentários e ficar a pensar que se vive num país habitado na sua maioria por atrasados mentais, é ir ao JN online e reforçar a ideia, é percorrer fóruns e ficar sem reacção. É ver gente a comentar as notícias sobre a Naide Gomes dizendo coisas como

Já basta de brincar com o dinheiro dos meus impostos!

ou

naide o teu segundo salto, se não foi brincadeira chamas-lhe o quê?

Comentários destes são aos magotes e nos cafés não faltam os comentários de que “já se sabia que ia ser uma desilusão“. Cada um de nós é mais especialista que o outro, dia após dia, competição após competição.

Ah, e já me esquecia, também cheguei a ler no Público um comentário de alguém que, num momento de rara beleza, conseguia culpar o Sócrates pela falta de medalhas para Portugal.

Resumindo em meia dúzia de linhas a cronologia destes jogos lolímpicos:

  1. “Somos os melhores do mundo em tudo!”
  2. “Somos os melhores do mundo em tudo, mas não temos meios para treinar tanto nem tão bem como os outros.”
  3. “Temos alguns gajos que podem chegar às medalhas.”
  4. “Vamos lá ver se se consegue alguma coisa, nem que seja uma prata, porque estes gajos parece que vão para ali brincar.”
  5. “Parem de brincar com os meus impostos”.
  6. “PA-LHA-ÇOS! PA-LHA-ÇOS! DEVIAS ERA ESTAR NAS OBRAS EM VEZ NOS CHULAR!”

Belo. Então se o Nélson Évora não conseguir pelo menos o bronze vai ser o bom e o bonito…

Enquanto isso, porque é que não aproveitam para ver um bocadinho de espírito olímpico, uma pequena cena tirada dos jogos de 92 onde o ex-campeão mundial dos 4×400m, Derek Redmond, teve direito a uma ovação de todo o público, em pé, independentemente do resultado conseguido:


Arquivo de August, 2008

1000V – 250J


Mais tarde ou mais cedo lá me tinha que dar o bichinho de voltar a escrever aqui qualquer coisa. Eu sabia perfeitamente isso e como tal pouco ou nada me importei de ver isto a ganhar teia e bicharada nos cantos como aconteceu durante o tempo que o Bisca esteve ligado à máquina . Só dava sinais de vida quando o rei fazia anos e fazia-o quase contrariado. Foram algumas largas semanas sem sequer abrir qualquer blogue. Que me desculpem o Bitaites, o 9-9, o Arioplano, o Café Moído e todos os outros responsáveis pela falta de vida que fui tendo ao longo de uns quantos meses, os mesmos meses que viram isto ter vida.
Agora a coisa muda de figura por duas razões:
- tenho vontade de escrever aqui.
- não tenho grande tempo para isso.
Por isso vou é ver se aproveito o tempo que consigo passar em casa a coçar a bela tomatada para fazer coisas decentes aqui em vez de simplesmente alimentar a micose.

Mas para já vou passar uns dias fora e sem net (acho eu). Vou só ver se aproveito antes de sair para escrever qualquer coisinha.